Posfácio do quadrinho “10 Dias Perdidos”, de Sam Hart

Recebi um convite do quadrinista Sam Hart para escrever o posfácio do segundo número de sua minissérie “10 Dias Perdidos”, que faz uma deliciosa mistura de ciência, história e magia. A publicação foi lançada em meados de 2019! Confira o texto:

“Apesar de quadrinista e tarólogo, sou formado em História pela USP e fascinado por uma de suas grandes questões: o que é o tempo?

Por meio da historiografia e da magia, desenvolvi uma relação íntima e complexa com a temporalidade. Segundo a teoria da relatividade desenvolvida por Albert Einstein, a percepção de passado, presente e futuro é apenas uma ilusão. Afinal, tempo e o espaço são a mesma coisa. E nosso corpo nada mais é do que uma máquina do tempo que trilha um trajeto específico de viagem no tempo. 

Nossa percepção temporal é linear (segundo a segundo, minuto a minuto), mas nós percorremos o tempo há uma velocidade de 1,08 bilhão de km/h. Quando nos movemos no espaço, usamos essa mesma celeridade. Ou seja, quanto mais rápido nos deslocamos espacialmente, mais lenta fica nossa viagem pelo tempo. Beira ao fantástico, não é mesmo?

Mas é como diria o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke: “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinta de magia”. Ironicamente, já ouvi magos do caos afirmarem: “Qualquer magia suficientemente avançada é indistinta de tecnologia”. 

Por essas e outras, me vejo tão fascinado pelo estudo do Tarot, esse sistema de cartas oracular utiliza narrativas construídas em torno de processos cíclicos, fortemente inspirados no monomito (aquele sintetizado por Joseph Campbell como A Jornada do Herói). As narrativas presentes no tarot têm seu início e fim interligados, tornando o processo de desenvolvimento pessoal uma constante espiral cíclica, claramente representada no arcano maior A Roda da Fortuna. 

E o que isso tem a ver o tempo na História? Ao contrário de ser uma simples linha reta, como vemos nas linhas do tempo escolares, a representação dos processos históricos na História é complexa. Segundo o filósofo Giambattista Vico, o tempo histórico pode ser definido como um espiral temporal ascendente ou helicoidal. Ou seja, apesar de vivermos ciclos históricos distintos repetimos alguns padrões. Por exemplo, desenvolvermos um determinado sistema de sociedade e em seu ápice atingimos novamente à barbárie, reiniciando o processo. Esse conceito remete a teoria sobre O Eterno Retorno, desenvolvida por Nietzsche, que defendia que vivemos passado, presente e futuro ao mesmo tempo e de forma cíclica e infinita, sendo nosso destino um repetitivo e cáustico ciclo finito e inexorável.

Voltando ao Tarot, a carta zero O Louco é também o último arcano maior e assume o número 22. Apesar de ser a mesma carta, sua leitura é distinta dependendo de sua posição: O Louco do início é o potencial ilimitado de que alguém sem experiência ao iniciar o processo de determinado aspecto da vida; já O Louco que fica ao final dos arcanos maiores é o potencial ilimitado que um indivíduo experiente possui ao realizar algo que já domina a ponto de realizar de forma espontânea. 

O que nos leva refletir sobre essa HQ criada pelo brilhante Sam Hart, que acabamos de ler: é interessante notar que Sophya não luta para salvar o planeta de sua destruição, mas de sua imobilidade. A destruição levaria automaticamente ao ciclo de renascimento, mas a paralisia nos condenaria à inexistência.”

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